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A apnéia obstrutiva do sono é uma doença causada pelo colapso da musculatura faríngea durante o sono, impedindo o fluxo de ar para os pulmões. Quando estamos acordados usamos os músculos da faringe para auxiliar na fala, respiração e deglutição. Ao dormirmos esses músculos se relaxam e, em algumas pessoas, acabam obstruindo a passagem de ar como mostra a figura abaixo.
Isso impede que o sono avance até a fase restauradora (sono REM) uma vez que o individuo precisa acordar para voltar a respirar. Diversas são as conseqüências da falta de um sono adequado:
As principais causas da apnéia obstrutiva do sono são:
Existem diversos tratamentos para essa doença. Perda de peso,cirurgia, aparelhos ortodonticos e CPAP são os mais utilizados. Confira o intrigante relato de um paciente usuário de CPAP.
"Acordei extremamente assustado. E não era para menos. O som de uma buzina estridente e o trepidar do carro saindo pelo acostamento subitamente me trouxeram de volta à plena consciência. Dei-me conta que eu havia cochilado ao volante!
Felizmente o acostamento era suave, sem buracos, e a velocidade era moderada. Mentalmente agradeci por ter escapado ileso dessa situação de perigo.
Minha mulher cochilava no banco ao lado e igualmente despertou assustada. Meu machismo me levou a inventar uma desculpa qualquer. Tranqüilizei-a: desviei de um buraco, sai no acostamento, nada de mais. Ela voltou a cochilar.
Mas meus brios ficaram arranhados. Ficou clara e inequívoca a evidência que eu havia cochilado ao volante. Mentalmente fiz um rápido inventário dos últimos meses e identifiquei inúmeras situações que me vinham alertando, me trazendo avisos diários que algo não estava certo. Distrações nas reuniões, cochiladas diante da TV e do computador, falta de atenção, irritabilidade injustificada, baixa energia, sonolência frequente. Minha frase mais ouvida era sempre, após um intenso bocejo: "ahhhh, que sono!"
Uma visita de rotina ao meu médico acabou desaguando nesse assunto. Ele perguntou-me se eu dormia bem. Eu lhe garanti: estou ótimo, durmo nove horas de bom sono todas as noites; durmo tão bem que nem me recordo de meus sonhos. Em minha singeleza e ingenuidade cheguei a sugerir ao médico que a sonolência era originada por outros fatores, como hipotireoidismo, arrisquei, querendo mostrar meus rudimentares conhecimentos de medicina.
Mas minha mulher, também presente, alfinetou: "Ele ronca muito, doutor. Ele pode até dormir bem, mas eu mal consigo aguentar o ronco dele." Eu rebati imediatamente: já tentei usar um aparelho bucal que comprei na internet, que supostamente diminuiria o ronco. A ineficácia do dispositivo me conduziu ao dentista o qual me preparou outro dispositivo, semelhante a um aparelho ortodôntico, de certo custo, feito sob medida, para usar durante a noite. Nada adiantou. Continuo roncando.
O doutor prosseguiu, desta vez perguntando para a minha cara-metade: "Durante o ronco, ele pára de respirar por alguns segundos?" Minha mulher me entregou: "Isso acontece inúmeras vezes, durante a noite, doutor. Frequentemente chego até cutucá-lo, para ele voltar a respirar, temendo que isso possa ser prejudicial".
O doutor, com sensibilidade e delicadeza, explicou-me: Isso chama-se Síndrome da Apneia Obstrutiva do Sono. É uma doença crônica, evolutiva, com riscos de produzir outras doenças e distúrbios no organismo, e que apresenta índices de mortalidade.
A palavra mortalidade assustou-me. Lembrei-me da cochilada ao volante. Claro que eu poderia ter morrido de acidente. Mas a explicação do doutor era outra: embora pouco comum, há risco de morrer durante o sono, por parar de respirar.
Essa síndrome, causada por fatores como obesidade, idade, sedentarismo, herança genética, e outros, pode se tornar muito séria e atinge um percentual significativo da população, em praticamente todas as faixas etárias e sexos.
Ele continuou com a explicação: o sono se desenvolve em estágios progressivos. A pessoa adormece progressivamente em estágios de sono cada vez mais profundos. Somente nos estágios profundos é que o organismo se restaura e descansa. É nesses estágios que recuperamos as energias e refazemos nossas forças. É também nesses estágios que acontecem os sonhos. São chamados de estágios REM, (Rapid Eyes Movement, em inglês) movimentos rápidos dos olhos. São essenciais para a manutenção da boa saúde do organismo.
Durante o sono, conforme passamos aos estágios mais profundos, a musculatura da garganta e das vias respiratórias se relaxam e acabam obstruindo a respiração. O indivíduo interrompe a respiração e pára de oxigenar o organismo. Ao perceber a falta de oxigênio (e suas graves consequências sobre outros órgãos e sobre a saúde) o cérebro, em emergência, envia um comando determinando que o indivíduo interrompa o sono, que acorde, e volte a respirar, para não morrer asfixiado. O ciclo se repete várias vezes durante o sono. Essa é a síndrome da apneia obstrutiva do sono.
O indivíduo nem sequer percebe o que se passou. Ele teve um "micro-despertar", no jargão médico. Saiu de um estágio mais profundo do sono, que estava prestes a se iniciar e voltou aos estágios mais leves e superficiais. O estágio REM não foi atingido. Não houve descanso. Não houve restauração. Também não houve sonhos. E tudo se passa de maneira praticamente imperceptível para o indivíduo.
O cérebro, sentindo o perigo da asfixia comanda a interrupção do sono, para que a respiração possa ser reiniciada. Normalmente esse reinício vem com um estertor profundo e desagradável. A respiração e o ronco recomeçam. Mas o ciclo natural do sono foi interrompido. Mesmo sem perceber, mesmo acreditando o contrário, o individuo não chegou a dormir como devia e necessitava. Não descansou, não restaurou. Não atingiu os estágios REM, não sonhou.
Esse débito de sono vai se refletir na vida do indivíduo durante o dia seguinte: sonolência, cochilos, irritação injustificada, cansaço, distração. Outras possíveis complicações de saúde podem aparecer em mais longo prazo.
Álcool e sedativos agravam esse quadro, tornando o indivíduo ainda mais vulnerável às conseqüências dessa situação. Os riscos de mortalidade crescem. A tentativa de usar um sedativo para melhorar a qualidade do sono pode ter implicações opostas às desejadas.
Perguntei: "Doutor, o que eu faço?"
As respostas não me foram nada agradáveis: A longo prazo, emagreça. Faça exercícios. Elimine vários quilogramas de peso. E não há nada a fazer em relação à sua idade, nem aos fatores genéticos. Você deve consultar um especialista para obter a melhor orientação para seu caso. Pois há algumas alternativas em curto prazo, para melhorar sua qualidade de vida.
Uma delas é uma cirurgia que tenta desobstruir as vias respiratórias. Como em toda cirurgia, há riscos nesse procedimento. Nem sempre há garantia de sucesso. Após certo tempo os problemas podem recorrer. Mas o especialista o ajudará a decidir.
Existe também um dispositivo, conhecido como CPAP. Consiste de uma pequena máquina, com uma máscara facial e de um tubo que conecta a máscara na máquina. Para dormir, o indivíduo usa a máscara sobre o nariz. A máquina impele ar sob pressão pelo tubo até a máscara. O ar, com pressão personalizada para o usuário, penetra pelo nariz e pelas vias respiratórias, forçando-as a se manterem abertas. O ronco, e principalmente a apneia, são eliminados e o indivíduo passa a ter um sono saudável e restaurador.
É necessária a realização de um exame de polissonografia para determinação da efetiva necessidade desse equipamento, e se for o caso, para determinar a pressão necessária para cada indivíduo.
Imediatamente senti duas preocupações. Quanto custa? E qual o nível de desconforto que essa máquina, o tubo e a máscara causam durante o sono?
Bem, esse equipamento tem um custo. Mas tem um valor agregado imenso. Melhora sua qualidade de vida. E , no seu caso, é praticamente certo que eliminará a apneia e também a sonolência.
Isso me fez lembrar novamente da cochilada ao volante e do custo desastroso que isso poderia ter tido. E lembrei-me de distrações e falta de atenção, falta de concentração em reuniões. Racionalizei e pensei: não investir nisso pode ter um custo muitas vezes maior.
Quanto ao desconforto, os vários modelos de máscaras disponíveis permitem a escolha de uma que seja muito confortável ao seu perfil, adequada ao formato e tamanho da face, da cabeça e do nariz. O tubo (traqueia, no jargão médico) tem dois metros de comprimento, permite total flexibilidade ao dormir, virar na cama, conforto para deitar e levantar. Apenas não permite dormir de bruços, pois a máscara ficaria comprimida contra o travesseiro. Todas as outras posições são confortáveis. As máscaras são colocadas e removidas da face com muita facilidade. Após uns poucos dias de uso já se aprende a colocar e retirar rapidamente, a máscara, mesmo no escuro, permitindo remover a máscara para uma rápida ida noturna ao banheiro, sem grandes preocupações.
Além da melhoria de qualidade de vida, e provavelmente melhoria da saúde como um todo, seu cônjuge agradecerá o silêncio noturno que será restabelecido.
Existem alguns fóruns na internet (a maioria em inglês) onde literalmente milhares de usuários de equipamento CPAP discutem suas experiências e dão seus depoimentos. Após horas de leitura e aprendizado, fiquei assombrado com os endossos e relatos que li. Alguns desses depoimentos pareciam ter sido feitos por pessoas que me conheciam, tal a semelhança com o meu caso.
Alguns pouquíssimos usuários deram depoimentos negativos, o que simplesmente validou mais ainda as massivas recomendações dos demais comentários. Tomei a decisão. Adquiri uma máquina CPAP e hoje sou mais um dentre os milhões de usuários altamente satisfeitos e beneficiados com os resultados obtidos.
Voltei a dormir apenas seis ou sete horas todas as noites, como sempre havia sido o meu perfil. Mas agora é um sono restaurador, cheio de sonhos. Meus dias são cheios de energia e bem estar.
Hoje nem penso em dormir sem o equipamento CPAP, nem mesmo durante aquela tradicional cochilada nas tardes de domingo. Ao viajar, levo tudo numa pequena maleta, muito prática e discreta. Minha vida é outra. Minha qualidade de vida ganhou uma melhoria difícil de se descrever. Minha energia e disposição atuais chamaram a atenção daqueles que me conhecem mais de perto.
Muito obrigado, doutor, por sua orientação.
João B. M. Elias
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