Aline Botelho – Clube do Diabetes

Tenho trinta e sete anos, quase trinta e cinco de doença, e até uns 5 meses atrás vivia um dia a dia insano ao meio de tiras reagentes, agulhas, picadas, na eterna tentativa de manter a rotina de muita disciplina (eu pelo menos tentava!)

O Diabetes apareceu para mim quando não existia nenhum refrigerante diet, nem sequer tratamentos de última geração. Me lembro que cheguei a usar seringas de vidro (reutilizáveis, que deveriam ser esterilizadas a cada uso), insulinas de origem suína e bovina, e media a glicemia através da urina, por tirinhas reagentes chamadas Keto Diastix. Tudo era muito diferente do que vemos hoje. Já passei por poucas e boas, dei muito trabalho aos meus pais, pois sempre fui uma criança muito feliz, intensa, moleca. Andava de BMX e brincava de Barbie. Buscava docinhos escondidos pela casa, e não imaginava (mesmo que meu pai, farmacêutico, me explicasse isso) que poderia ter complicações sérias por conta de abusos. Meus pais foram sempre muito presentes, mas eu era muito danada.

Sempre curti muito atividades ao ar livre, nadava, fazia ballet, pedalava. Isso foi fundamental para meu estado hoje. Com os abusos do passado, há alguns anos tenho que conviver com o lado complicado desta doença silenciosa: tenho retinopatia e nefropatia diabéticas, hoje controladas (na medida do possível) e acompanhadas. Por isso, levo uma vida normal, faço dieta, quase não como doces, faço esporte. Às vezes, como um pedacinho de chocolate, bebo minha taça de vinho tinto (seco) ou uma cervejinha. Mas tudo com consciência. E ao menor sinal de perigo, corro ao médico, sempre.

Mas, com tanto tempo de doença, minha endócrino e eu decidimos que o melhor caminho para meus próximos anos de vida seria a utilização do Sistema de Infusão Continua de Insulina, a popularmente conhecida Bomba de Insulina, que hoje é considerado o melhor tratamento para o Diabetes tipo 1 existente. Eu relutei em usar a bomba por muitos anos. Não conseguia imaginar minha vida com aquele aparelho “grudado” em mim todo o tempo. Mas o medo e a descoberta de algo completamente novo me venceram.

Quando decidi fazer o teste da Bomba, me surpreendi com a praticidade, com a facilidade e com o quanto ela pode me ajudar a controlar a glicemia. A agulha (cânula) às vezes incomodava, mas quase sempre eu esquecia que estava com ela. E aprendi a esconder a bombinha no top, no bolso, no casaco. Media a glicemia muitas vezes ao dia, relatava tudo o que comia, contava carboidratos. E percebi que não conseguiria mais viver sem ela!

Há cerca de 15 dias instalei a bomba definitiva, e os controles ainda estão estranhos, mas estamos (eu, endócrino e a educadora do laboratório) tentando chegar a dose ideal para preservar minha saúde e minhas glicemias no lugar desejado. Sei que de agora em diante minha disciplina vai ser ainda mais rígida. E não acho isso ruim. Mesmo com a cânula sempre conectada ao meu corpo, hoje usar a bomba é algo fantástico, prático, super eficaz, principalmente para mim, que tenho uma vida bem agitada. Saio, viajo, malho e vou até à piscina com ela. Só desconecto para o banho e para nadar.

Todas essas experiências compartilho em meu blog, o Clube do Diabetes, que criei há pouco mais de um ano para contar um pouco da minha história e trocar experiências. Essa decisão me fez lidar de uma forma ainda mais suave com o Diabetes, e me fez querer, cada vez mais, ajudar a levar informação e dicas para tantos diabéticos.

Aline Botelho – Autora do blog clubedodiabetes.com na qual conta suas experiências e motiva aqueles que passam pela mesma situação. 

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