Lutas Por Políticas Públicas do Diabetes

Vanessa Pirolo


Para quem não me conhece, vou fazer uma breve apresentação. Tenho diabetes há 18 anos, sou jornalista especializada em saúde, coordenadora de advocacy da ADJ Diabetes Brasil, representante de 33 associações de diabetes brasileiras para discutir políticas públicas para melhorar o acesso ao tratamento adequado da população com diabetes e blogueira do Convivência com Diabetes.

Como meu trabalho se concentra em políticas públicas, não podia deixar de falar sobre este assunto com vocês.

O diabetes afeta 16 milhões de brasileiros no país. A Universidade Britânica King´s College publicou um estudo onde relata que o governo gastou 190 bilhões de reais em 2015 e, em 2030, pode chegar a 406 bilhões de reais. Mas para que o governo economize estes recursos, ele precisa tomar algumas medidas, entre as principais estão:

1 - Desde 2016 a ADJ, a Federação Nacional de Associações, Entidades de Diabetes, a Sociedade Brasileira de Diabetes e outras instituições lutaram pela incorporação das insulinas análogas de ação rápida no SUS. Depois que conseguimos esta vitória, desde agosto do ano passado este medicamento já deveria estar nas mãos das pessoas com diabetes tipo 1. Mas por que não estão? Por que o Ministério da Saúde não contava com a compra das agulhas. A consulta pública para compra delas foi no dia 11 de junho. Agora queremos saber do representante do Ministério da Saúde, quando estas insulinas serão disponibilizadas?

Só para contextualizar melhor, preciso explicar o motivo de trabalharmos tanto a favor desta insulina para quem não conhece. Primeiro, a eficácia deste tipo de medicamento é muito melhor e vou explicar seu efeito. Quando ingerimos um alimento, ele entra na corrente sanguínea a partir de 5 minutos. Após a aplicação da insulina análoga de ação rápida, ela começa a fazer efeito junto com o alimento, evitando os picos de glicemia alta, fato este que não ocorre com a insulina regular, já que ela começa a agir depois de 30 minutos e prorroga sua atuação entre duas a três horas, quando o alimento em média já terminou sua digestão no organismo. Como resultado, o corpo tende a ter uma hiperglicemia no início da atuação da insulina, já que ela não faz ação junto com o consumo de alimento e depois de duas horas, o organismo tende a ter hipoglicemia, já que a comida já terminou a digestão e a insulina continua agindo.

Este processo de altos e baixos, ao longo do tempo, traz inúmeras complicações. Quando a variabilidade da glicemia é muito alta, ou seja, se os valores glicêmicos variarem de 400mg/dl a 40 mg/dl no mesmo dia, como exemplo, a pessoa com diabetes estará suscetível a ter futuras complicações cardiovasculares, independentemente da idade.

Outro motivo a favor desta medicação é que os estudos, apresentados no dossiê enviado para a Conitec, mostram diminuição do número de episódio de hipoglicemias graves nos indivíduos. Lembrando que hipoglicemias graves são aquelas nas quais o paciente necessita da ajuda de outra pessoa para resolvê-la e que ainda pode culminar em convulsão, perda de consciência e morte, caso a hipoglicemia não seja identificada e tratada. Além de reduzir o número de episódios de hipoglicemia durante o sono.

2 - Outro ponto importante que as associações têm trabalhado juntas é: como esta insulina será disponibilizada pela população? Pelos Endocrinologistas? O Brasil tem cerca de 5.000 profissionais desta área para atender mais de 211 milhões de brasileiros. Como a população terá acesso a estes profissionais? Temos conhecimento de que há municípios brasileiros que não dispõem de um endocrinologista. Por isso, reforçamos aqui a importância de se fazer um curso mesmo que à distância com os profissionais dos SUS, que tratam pessoas com diabetes, para que possam entender melhor todas as especificidades do tratamento do diabetes tipo 1 e possam ajudar as pessoas com a condição à aderir ao tratamento. Para isso, faremos em breve este questionamento para o Ministério da Saúde.

3 – Em terceiro lugar, após dois anos de conversa com a Anvisa, os laboratório responsáveis pela fabricação dos glicosímetros serão obrigados a provar até novembro a precisão dos mesmos com a Instrução Normativa 24 da instituição. Vamos cobrar da Anvisa todos os documentos das empresas que provem esta precisão.

Há muitos outros pontos que eu, representando a ADJ, como as 33 associações de pessoas com diabetes, mais a Sociedade Brasileira de Diabetes continuamos a lutar persistentemente para que possamos melhorar o acesso ao tratamento adequado das pessoas com diabetes e fazer com que o governo possa economizar os 190 bilhões de reais do estudo citado no início do texto. Mas para isso, sem a parceria de todos os membros da sociedade, incluindo você, não poderemos reverter esta situação no país.