É preciso empoderar o paciente com diabetes

JC conversou, nos EUA, com um dos maiores especialistas na doença no Brasil

O endocrinologista paulista Walter Minicucci é uma das maiores autoridades em diabetes no Brasil. O JC conversou com ele no Congresso da American Diabetes Association, no início de junho, em San Francisco (EUA). Ele falou sobre o momento atual da doença no Brasil e no mundo, além das perspectivas para o futuro.

EVOLUÇÃO

A primeira paciente que tratei foi há 42 anos. Naquela época não tinha muita coisa a fazer a não ser dar insulina NPH, que ainda era animal, pouco purificada. Não havia jeito de se medir a glicemia, apenas pela urina. Mas, principalmente nas duas últimas décadas, a evolução dos tratamentos foi muito rápida. A tecnologia fez uma grande diferença. Hoje existe um sensor de glicose que o paciente utiliza passando o celular. Isso é muito importante, não só para quem tem diabetes tipo 1, mas, por exemplo, para um idoso que mora só ou que tem um cuidador. Ele pode, se estiver passando mal, medir rapidamente a glicose. As bombas de insulina também trouxeram muitos benefícios às grávidas com diabetes, por exemplo. As pessoas enxergam o que está acontecendo com elas, o aumento da qualidade de vida. Eu, por exemplo, posto várias coisas sobre minha atividade profissional no Instagram. Quem diria que um cara de 70 anos teria um Instagram?

FARDO

Acreditem: viver com diabetes, principalmente a tipo 1, não é fácil. É um fardo muito grande. Aí você vai atender um paciente jovem, por exemplo, e, para motivá-lo, mostra o poster de um surfista bonito e forte, diz que ele é diabético tipo 1 e campeão mundial da categoria. Como se o jovem precisasse ser campeão mundial de alguma coisa. Conviver com a doença e ter essa rotina de privações já é o bastante. E ainda tem o tipo 2.

NÚMEROS

As estatísticas oficiais de quatro anos atrás mostram que o Brasil tem 14 milhões de diabéticos, acredito que, hoje, sejam 20 milhões. Entre cinco e dez milhões não sabem que têm a doença. Por que isso aconteceu? Entre outras coisas, devido à epidemia de obesidade. Estamos comendo errado, andando errado. Isso começou ali por volta da década de 1980, quando a chamada comida de cafeteria se popularizou. Foi quando começou-se a levar os filhos a lanchonetes de fast food com frequência bem maior que uma vez no mês. Também passamos a cozinhar menos em casa. A violência nos leva a ficar mais trancados, não andamos tanto na rua, e, quando fazemos, é de carro.

CONSCIÊNCIA

Uma das coisas mais importantes no tratamento é empoderar o paciente. Fazer com que ele seja ele mesmo. Eu não tenho diabetes. Se eu tivesse, eu viveria com isso e saberia como ele se sente. Tenho cinco amigos que são grandes médicos na área e todos têm diabetes tipo 1. Para eles, é mais fácil, eles vivem diariamente com a doença. É preciso dar conselhos que animem o paciente. Se ele não gosta de ginástica, exercício em geral, que tal sair pra dançar? Sair com o cachorro? É preciso dar a ele algo que ele possa cumprir.

OBSTÁCULOS

É muito importante fazer esse acompanhamento do paciente. Os obstáculos ao tratamento são muitos. Na Unicamp a gente atende a uma população muito pobre. De uma forma geral, como uma mulher pode, por exemplo, ter uma jornada tripla, chegar em casa e arrumar a bagunça que o marido e os filhos deixaram, fazer jantar, ficar bonita para o marido e ainda ter foco no tratamento? Por isso existe atualmente um forte investimento no acompanhamento desse paciente, para que não abandone o tratamento.

MUDANÇAS

As verdades em medicina não são absolutas e mesmo as absolutas, não são permanentes. O (filósofo austríaco Karl) Popper dizia que a cada descoberta que se faz, surgem outras perguntas. Na medicina é assim. A dieta para diabéticos mudou muito ao longo dos anos. Já houve uma cota de 60% de carboidratos, depois 40%, agora está em 20%. O mesmo acontece na difusão do conhecimento médico. Quem são os maiores influenciadores hoje? Blogueiros e youtubers. Cresceu muito a qualidade deles. Estudaram, fizeram pós, mestrado. Quem falou primeiro da Afrezza (a insulina inalável) foi um a blogueira. Deu furo, publicou na frente de todo mundo.

SUS E DIABETES

Independentemente do grupo político no poder, o Brasil tem o maior programa de distribuição de insulina no mundo. Há medicamentos muito bons, como a metformina, distribuídos de graça. Os portadores de diabetes tipo 2 precisam de outros tipos de droga. As novas medicações que estão chegando são muito efetivas, mas o problema é o custo. Se o governo escolhesse apenas um desses e concentrasse os esforços na aquisição e distribuição, a hemoglobina glicada cairia em dois pontos no Brasil. É preciso convencer o governo.

CULTURA

Somos levados a querer resolver tudo mais rápido. A história do no pain, no gain (se não há dor, não há resultado)? Não queremos. É pra ficar rico? Jogue na loteria. A mesma coisa é com a dieta. Não queremos nos privar das coisas hoje, mesmo sabendo que é um investimento no futuro. Sabe quem pode mudar isso? Os americanos. Assim como mudaram a cultura em torno do cigarro. Durante muito tempo foi glamourizado, mas tomou a direção contrária quando perceberam o mal que o cigarro faz. Isso foi uma mudança cultural. Ficou feio fumar. Os reality-shows de culinária podem ter uma grande influência. Eles estimulam as pessoas a cozinharem, a comerem melhor. Eu mesmo estou aprendendo a cozinhar.

Fonte: https://tudonoticia.org/saude/e-preciso-empoderar-paciente-diabetes-28668440